domingo, 24 de abril de 2011

Evangelho (Missa Vespertina): Lc 24, 13-35


No caminho de Emaús

13Naquele mesmo dia, o primeiro da semana, dois dos discípulos de Jesus iam para um povoado, chamado Emaús, distante onze quilômetros de Jerusalém. 14Conversavam sobre todas as coisas que tinham acontecido. 15En-quanto conversavam e discutiam, o próprio Jesus se aproximou e começou a caminhar com eles. 16Os discípulos, porém, estavam como que cegos, e não o reconheceram. 17En-tão Jesus perguntou: "O que ides conversando pelo caminho?" Eles pararam, com o rosto triste, 18e um deles, chamado Cléofas, lhe disse: "Tu és o único peregrino em Jerusalém que não sabe o que lá aconteceu nestes últimos dias?" 19Ele perguntou: "O que foi?" Os discípulos responderam: "O que aconteceu com Jesus, o nazareno, que foi um profeta poderoso em obras e palavras, diante de Deus e diante de todo o povo. 20Nossos sumos sacerdotes e nossos chefes o entregaram para ser condenado à morte e o crucificaram. 21Nós esperávamos que ele fosse libertar Israel, mas, apesar de tudo isso, já faz três dias que todas essas coisas aconteceram! 22É verdade que algumas mulheres do nosso grupo nos deram um susto. Elas foram de madrugada ao túmulo 23e não encontraram o corpo dele. Então voltaram, dizendo que tinham visto anjos e que estes afirmaram que Jesus está vivo. 24Alguns dos nossos foram ao túmulo e encontraram as coisas como as mulheres tinham dito. A ele, porém, ninguém o viu".

25Então Jesus lhes disse: "Como sois sem inteligência e lentos para crer em tudo o que os profetas falaram! 26Será que o Cristo não devia sofrer tudo isso para entrar na sua glória?" 27E, começando por Moisés e passando pelos profetas, explicava aos discípulos todas as passagens da escritura que falavam a respeito dele. 28Quando chegaram perto do povoado para onde iam, Jesus fez de conta que ia mais adiante. 29Eles, porém, insistiram com Jesus, dizendo: "Fica conosco, pois já é tarde e a noite vem chegando!" Jesus entrou para ficar com eles. 30Quando se sentou à mesa com eles, tomou o pão, abençoou-o, partiu-o e lhes distribuía.

31Nisso os olhos dos discípulos se abriram e eles reconheceram Jesus. Jesus, porém, desapareceu da frente deles. 32En-tão um disse ao outro: "Não estava ardendo o nosso coração quando ele nos falava pelo caminho, e nos explicava as escrituras?" 33Naquela mesma hora, eles se levantaram e voltaram. para Jerusalém onde encontraram os onze reunidos com os outros. 34E estes confirmaram: "Realmente, o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão!" 35Então os dois contaram o que tinha acontecido no caminho, e como tinham reconhecido Jesus ao partir o pão. Palavra da Salvação!
Onde e como experimentar o Cristo vivo?


O episódio dos discípulos de Emaús é texto exclusivo de Lucas (Marcos sintetiza a cena, cf. Mc 16,12-13). Pertence aos acontecimentos pós-pascais e responde à pergunta: onde e como experimentar o Cristo vivo? De fato, no que Lucas relata antes do texto de hoje (24,1-12) transparece a incredulidade e perplexidade dos discípulos. Num plano mais amplo, o episódio revela as dificuldades de muitos cristãos em aceitar a ressurreição de Jesus, pois o evangelho não quer simplesmente narrar fatos do passado, mas iluminar as dificuldades do presente (lembramos que o Evangelho de Lucas se destinava a cristãos de cultura grega, para os quais a ressurreição da matéria era um absurdo).

Antes de entrarmos no texto de hoje, algumas observações de conjunto nos permitirão entendê-lo melhor. Em primeiro lugar, há nítido contraste entre Jerusalém e Emaús. Jerusalém foi o lugar do testemunho de Jesus (morte na cruz). De lá, animados pelo Espírito do Ressuscitado, os discípulos sairão para o testemunho. Sair de Jerusalém sem crer que lá é o lugar da vitória do Senhor é caminhar sem rumo e sem sentido. Por isso, Emaús é sinônimo da cegueira, da não compreensão do evento da Páscoa. Em segundo lugar, há contraste entre o não reconhecimento de Jesus por parte dos discípulos (v. 16) e o pleno reconhecimento (v. 31). Em terceiro lugar, o contraste está no fato de Jesus se aproximar e conversar com os discípulos (v. 15) e desaparecer da frente deles (v. 31). Finalmente, há grande contraste entre os conteúdos da conversa dos discípulos antes de Jesus caminhar com eles (v. 14) e depois que reconheceram Jesus (v. 32). A gente então se pergunta: o que foi que causou – e continua causando – essa reviravolta na vida desses discípulos e na vida dos cristãos?

a. Jesus é aquele que caminha com a humanidade (vv. 13-16)
É o dia da ressurreição (v. 13), mas os dois discípulos não entenderam os acontecimentos dos dias anteriores. Para eles, Jerusalém é o lugar da derrota de Jesus. Por isso eles vão para Emaús, desanimados como quem perdeu o sentido da vida. O texto não permite localizar geograficamente Emaús. Algumas variantes do texto grego situam esse lugar a 11 quilômetros de Jerusalém; outras a 30 quilômetros. Mas isso não é importante. O importante é notar o seguinte: Para Lucas, Jerusalém é o lugar onde Jesus venceu; para os discípulos de Emaús, é o lugar da derrota e da morte. Ir a Emaús não é somente ir para casa, mas abandonar o projeto de Deus.

Ora, é nesse contexto de perplexidade e desânimo que o Ressuscitado se faz presente como força revolucionária. Jesus é aquele que caminha com a humanidade, com a energia de sua vitória sobre a morte. A perplexidade e desânimo dos discípulos se manifestam no teor da conversa (v. 14). Revelam o estado de ânimo de uma comunidade desorientada, sem força para o testemunho. É com esse tipo de comunidade que Jesus se põe a caminho.

b. Jesus revela à comunidade o sentido de sua morte e a vitória da ressurreição (vv. 17-27)
A comunidade desorientada não experimenta a vitória do Ressuscitado. Percebe os fatos, mas não os discerne. Jesus pode estar caminhando com ela, mas ela não o reconhece. De fato, no diálogo de Jesus com os discípulos, percebe-se que eles conhecem os fatos referentes à vida de Jesus antes e durante a paixão; manifestam suas expectativas em relação à libertação (v. 21) e sua frustração diante da morte na cruz (v. 20). A referência ao terceiro dia após a morte de Jesus (v. 21) sela essa frustração sem expectativas. De fato, acreditavam que, depois do terceiro dia, o espírito se afastaria definitivamente do corpo, sem possibilidade de retorno. A morte teria tomado conta de Jesus e da comunidade. Nem sequer o testemunho das mulheres, o túmulo vazio, a mensagem dos anjos e a própria constatação de que o sepulcro está vazio (vv. 22-24a; cf. 24,1-12) são razões que mereçam crédito: “Ninguém o viu” (v. 24b). Nem mesmo a presença de Jesus caminhando com eles é capaz de fazer reconhecê-lo!

Eis, então, que Jesus apresenta o primeiro instrumento que suscita a fé na ressurreição – a Bíblia: “Começando por Moisés e continuando pelos Profetas, explicava para os discípulos todas as passagens da Escritura que falavam sobre ele” (v. 27). Moisés e os Profetas significam, aqui, todo o Antigo Testamento. Jesus é a chave de leitura de todo o Antigo Testamento. É o perfeito exegeta do Pai (Jo 1,18). Mostra-lhes, com base no Antigo Testamento, que o projeto do Pai tomou forma definitiva no Messias sofredor.

c. Jesus é aquele que partilha e comunica a vida (vv. 28-32)
Cativados pela palavra de Jesus, os discípulos convidam-no para que seja hóspede deles: “Fica conosco, pois já é tarde e a noite vem chegando!” (v. 29). Aqui é preciso ir além da simples constatação de que, como em diversos lugares do mundo, na Palestina a noite cai depressa. O pedido dos discípulos é o próprio apelo da comunidade cristã. De fato, quem sairia prejudicado pela noite que se aproximava: Jesus ou os discípulos? Estes, apesar de terem uma casa onde ficar, acabariam privados da luz que é Jesus. Nesse sentido, o apelo dos discípulos está bem próximo de outra invocação das primeiras comunidades: “Vem, Senhor Jesus!” (Maranathá, cf. Ap 22,20).

Jesus aceita o convite em solidariedade à comunidade. De fato, de hóspede passa a ser dono da casa, o anfitrião, pois é ele quem lhes dá o pão: “Sentou-se à mesa com os dois, tomou o pão, o abençoou, depois partiu e o dava a eles” (v. 31). Temos nesse versículo os termos técnicos que indicam a eucaristia. É o segundo instrumento que leva à fé em Jesus ressuscitado: a partilha, a comunicação da vida. E é também o momento decisivo, porque os olhos dos discípulos se abrem e eles reconhecem Jesus (v. 31) nestes dois meios fundamentais: a Sagrada Escritura e a eucaristia. Daí em diante é supérflua a presença física de Jesus. Ele desaparece porque a comunidade possui os dois sacramentos da presença dele: sua Palavra e seu gesto de partilha. Basta viver isso para sentir o Cristo vivo e presente em nosso meio.

d. O testemunho dos discípulos é o prolongamento da vitória de Jesus (vv. 33-35)
O dia da Páscoa se encerrou com a fração do pão, na qual os discípulos reconhecem Jesus (no mundo bíblico, o novo dia se inicia à noitinha). Estamos, pois, no amanhã da Páscoa, hora do testemunho da comunidade que experimentou a presença do Cristo ressuscitado no meio dela. Lucas salienta que a hora do testemunho se inicia imediatamente (cf. v. 33), levando os discípulos de volta a Jerusalém, lugar do testemunho de Jesus e lugar de onde, após o Pentecostes (At 2,1-11), os discípulos sairão para levar a mensagem ao mundo inteiro (Lc 24,47; cf. At 1,8).

Concluindo, podemos afirmar que a Palavra de Deus (Bíblia) e a partilha mudaram completamente a orientação de vida daqueles dois discípulos. Aquilo que Jesus fez com eles o faz também conosco hoje. Ele é a Palavra e o Pão partilhados. Quando aprenderemos que, sem partilha, fraternidade e solidariedade, estaremos caminhando num rumo que nos afasta sempre mais do testemunho de Jesus? [Vida Pastoral nº 253, Paulus, 2007]

sábado, 23 de abril de 2011

Círio Pascal, Alfa e Ômega


O Círio Pascal é uma vela especial, de maiores dimensões, feita com 75% de cera pura e representa Cristo ressuscitado.

É benzido e aceso pela primeira vez nas cerimônias litúrgicas de Sábado Santo ou Vigília Pascal. Quando o Círio Pascal é benzido, colocam-se cinco pequenas pinhas com grãos de incenso embutidas, em forma de cruz e que significam as Cinco Chagas de Cristo.

É desenhada, ou pintada, ou aplicada como Decalcomania uma cruz vermelha. No topo aplica-se do mesmo modo a letra grega Alfa (Ά) que significa o princípio; e na parte inferior a letra grega Ômega (Ώ) que significa o fim, para nos indicar que Cristo é o Princípio e o Fim de todas as coisas que existem.

A partir de Sábado Santo e até à festa da Ascensão, o Círio Pascal deve acender-se durante a Missa dominical e em outras festas litúrgicas. De cada vez que se benze a água batismal se deve acender o Círio Pascal que nessa cerimônia é mergulhado nessa água para o Batismo. Quando se administra o Batismo, também deve estar o Círio Pascal aceso e é nele que se acende a vela que é entregue no Batismo. Também durante as exéquias e missa de corpo presente se deve acender o Círio Pascal exatamente por causa do seu significado e simbolismo da ressurreição de Cristo, e esperança da ressurreição final dos que morrem.


Alfa e ômega
Quando empregamos esta expressão Alfa Ά e Ômega, Ω estamos a referir-nos à primeira e última letras do Alfabeto grego. É como se disséssemos o A e Z, que são a primeira e última letras do nosso Alfabeto. Como símbolo religioso, empregamos as duas letras gregas, desenhadas de várias maneiras, referindo-nos a Cristo que é o Princípio e o Fim de todas as coisas, o nosso Criador.

Esta expressão aparece várias vezes na Bíblia:

- Eu sou o Alfa e o Ômega, diz o Senhor Deus, O que era e que há de vir, o Todo Poderoso           (Ap 1,8)
- Continuou: Está feito: Eu sou o Alfa e o Ômega. (Ap 21,6).
- Eu sou o Alfa e o Ômega, o Primeiro e o último.(Ap 22,13).

Portanto o Alfa e Ômega, como símbolo religioso significa a divindade de Cristo.

Já no Antigo Testamento, pela voz de Isaías, Deus disse:

- Eu, sou o Senhor que sou o Primeiro… (Is 41,4).
- Eu sou o primeiro e o último e não há outro Deus fora de Mim. (Is44,6).

Portanto São João no Apocalipse aplica este título a Cristo. Todas as vezes que encontrarmos este monograma, já sabemos que se trata de um símbolo cristão que nos fala da Divindade de Cristo, nosso Criador e Senhor, o Princípio e o Fim de todas as coisas.

Os símbolos pascais


O simbolismo do fogo
 Reconhecido pelos antigos como um dos quatro elementos do mundo, o fogo é um princípio ativo. Suas características são certa “materialidade” ou “espiritualidade”, que o torna próximo a Deus. Tem capacidade de purificar e regenerar. Os ritos de purificação são bem conhecidos: basta lembrar as queimadas que preparam o manto verde da natureza; o crisol onde são purificados os metais etc. Em sentido translato, o fogo representa o amor, as paixões que se aninham nos corações. Na Bíblia, o fogo é sinal da presença e ação de Deus no mundo (1Rs 19,12), é expressão da santidade e transcendência divinas. As teofanias sob a forma de fogo marcam momentos ímpares da revelação de Deus: no Horeb (Ex 3,2ss) e Sinai (19,18ss), e são importantes do ponto de vista da vocação de alguns profetas (Is 6,6; Ez 1,4; cf. 2Rs 2,11).
 Na liturgia da Vigília Pascal, o fogo representa a grande teofania de Deus: a nova criação realizada na ressurreição de Jesus. (Onde for possível, permitir aos participantes expressarem o significado que o fogo possui.)


O simbolismo da luz
 A luz é força fecundante, condição indispensável para que haja vida. Em oposição às trevas, símbolo do mal, da infelicidade, da perdição e da morte, a luz exalta o que é belo e bom. Na Bíblia, Deus é luz (Sl 27,1; Is 9,1). Jesus é a luz do mundo (Jo 8,12; 9,5). Quem crê se torna luz (Mt 5,14), reflexo da luz de Cristo (2Cor 4,6). A vida inspirada pela fé é um “caminhar na luz” (1Jo 2,8-11). A transfiguração de Jesus, manifestação de sua filiação divina, é uma antecipação da glória pascal que ilumina os que crêem.

Entre todos os simbolismos que derivam da luz e do fogo, o Círio Pascal é a expressão mais forte por sua riqueza de significados. É a fusão da lua cheia de Nisan (símbolo da salvação pascal) e o rito da luz (quando, à tardinha, os hebreus acendiam as lâmpadas), que é uma ação de graças pelo dom da luz. Representa Cristo ressuscitado, vencedor das trevas e da morte (os cravos do Círio), Senhor da história (os algarismos), princípio e fim de tudo (A e Z), sol que não conhece ocaso. É aceso com o fogo novo, produzido em plena escuridão, pois na Páscoa tudo renasce.

A tipologia da luz é descrita no Exultet, que forma um todo orgânico com o anúncio da libertação pascal. A aclamação “Eis a luz de Cristo” é um memorial da Páscoa. A procissão com o Círio marca a presença de Cristo no meio do seu povo.



O simbolismo da água
A água é símbolo da vida. Representa a eficácia do sangue redentor de Cristo, comparado à água que lava. A descida do catecúmeno à fonte batismal é assimilada à descida de Cristo às profundezas da terra. A imersão do Círio Pascal na água é a união do elemento divino com o humano, a força fecundante de Cristo, gerador de vida nova, para que todos os que se banharem nessa água fecundada se tornem filhos de Deus. (Estas considerações sobre os principais símbolos da Vigília Pascal foram extraídas do Dicionário de Liturgia, Paulus, São Paulo, 2ª edição, 2001.) [Fonte: Vida Pastoral nº 253, Paulus]

Evangelho (Ano A): Mateus (Mt 28, 1-10

Ele ressuscitou e
vai à vossa frente para a Galiléia

 1Depois do sábado, ao amanhecer do primeiro dia da semana, Maria Madalena e a outra Maria foram ver o sepulcro. 2De repente, houve um grande tremor de terra: o anjo do Senhor desceu do céu e, aproximando-se, retirou a pedra e sentou-se nela. 3Sua aparência era como um relâmpago, e suas vestes eram brancas como a neve. 4Os guardas ficaram com tanto medo do anjo, que tremeram, e ficaram como mortos.

5Então o anjo disse às mulheres: "Não tenhais medo! Sei que procurais Jesus, que foi crucificado. 6Ele não está aqui! Ressuscitou, como havia dito! Vinde ver o lugar em que ele estava. 7Ide depressa contar aos discípulos que ele ressuscitou dos mortos, e que vai à vossa frente para a Galiléia. Lá vós o vereis. É o que tenho a dizer-vos". 8As mulheres partiram depressa do sepulcro. Estavam com medo, mas correram com grande alegria, para dar a notícia aos discípulos. 9De repente, Jesus foi ao encontro delas, e disse: "Alegrai-vos!" As mulheres aproximaram-se, e prostraram-se diante de Jesus, abraçando seus pés. 10Então Jesus disse a elas: "Não tenhais medo. Ide anunciar aos meus irmãos que se dirijam para a Galiléia. Lá eles me verão". Palavra da Salvação!

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Cristo, Verdadeiro Cordeiro Pascal


Celebração Da Paixão Do Senhor


A leitura da Paixão segundo João Constitui o modo privilegiado de acesso ao mistério pascal, que neste dia revivemos, sobretudo como morte do Senhor.

Jesus morre no momento em que, no templo, se imolam os cordeiros destinados à celebração da páscoa (19,31); a sua imolação é uma imolação "real", um sacrifício realizado uma vez por todas, porque a vitima espiritual" tornou inúteis as vítimas materiais. Outros pormenores completam o quadro: a Jesus não são quebradas as pernas, em conformidade com as prescrições rituais (Ex 12,46); do seu lado traspassado jorra o sangue, com o qual são misteriosamente assinalados os que pertencem ao novo povo, aqueles que Deus salva (cf Ex 12,7.13). Cristo crucificado é, pois, o "verdadeiro Cordeiro pascal": ele é a "nossa Páscoa" imolada (cf 1 Cor 5,7). "Verdadeiro ,porque e a realidade daquilo que os sacrifícios antigos exprimiam: a salvação recebida e esperada, a aliança com Deus e a inserção em seu desígnio. Esta descrição não é uma novidade; os profetas, e especialmente o Segundo Isaias (2~ leitura), descrevem o Servo do Senhor no momento em  que  realiza sua missão  de  libertar  o  povo dos pecados e de torná-lo agradável a Deus, como um cordeiro inocente, carregado dos delitos do seu povo, e que, em silêncio, se deixa conduzir ao matadouro. E é de sua morte, aceita livremente, que provém a justificação "para todos".

A leitura da Paixão segundo João Constitui o modo privilegiado de acesso ao mistério pascal, que neste dia revivemos, sobretudo como morte do Senhor.

Jesus morre no momento em que, no templo, se imolam os cordeiros destinados à celebração da páscoa (19,31); a sua imolação é uma imolação "real", um sacrifício realizado uma vez por todas, porque a vitima espiritual" tornou inúteis as vítimas materiais. Outros pormenores completam o quadro: a Jesus não são quebradas as pernas, em conformidade com as prescrições rituais (Ex 12,46); do seu lado traspassado jorra o sangue, com o qual são misteriosamente assinalados os que pertencem ao novo povo, aqueles que Deus salva (cf Ex 12,7.13). Cristo crucificado é, pois, o "verdadeiro Cordeiro pascal": ele é a "nossa Páscoa" imolada (cf 1 Cor 5,7). "Verdadeiro ,porque e a realidade daquilo que os sacrifícios antigos exprimiam: a salvação recebida e esperada, a aliança com Deus e a inserção em seu desígnio. Esta descrição não é uma novidade; os profetas, e especialmente o Segundo Isaias (2~ leitura), descrevem o Servo do Senhor no momento em que realiza sua missão de libertar o povo dos pecados e de torná-lo agradável a Deus, como um cordeiro inocente, carregado dos delitos do seu povo, e que, em silêncio, se deixa conduzir ao matadouro. E é de sua morte, aceita livremente, que provém a justificação "para todos".

O dramático diálogo com Pilatos mostra Jesus silencioso, enquanto a autoridade, neste momento a serviço do pecado do mundo que cega o povo, decide sua morte e o condena.

Não seria completa a compreensão do mistério de Jesus se não contemplássemos também, como o Apocalipse de João, o Cordeiro glorioso, que está diante de Deus com os sinais das suas chagas, dominador do mundo e da história (Ap 5,6ss); o Cordeiro que se imolou por amor da Igreja e para o qual a Igreja tende, cheia de amor. Na cruz se iniciaram as núpcias do Cordeiro, que terão sua realização plena na festa do céu (cf Ap 19,7-9).

Evangelho: João (Jo 18, 1—19,42)

Paixão de nosso Senhor Jesus Cristo

Prenderam Jesus e o amarraram
Naquele tempo, 1Jesus saiu com os discípulos para o outro lado da   torrente do Cedron. Havia aí um jardim, onde ele entrou com os   discípulos. 2Também Judas, o traidor, conhecia o lugar, porque Jesus     costumava reunir-se aí com os seus discípulos. 3Judas levou consigo um destacamento de soldados e alguns guardas dos sumos sacerdotes e fariseus, e chegou ali com lanternas , tochas e armas. 4Então Jesus, consciente de tudo o que ia acontecer, saiu ao encontro deles e disse: A quem procurais? 5Responderam: A Jesus, o nazareno. Ele disse: Sou eu. Judas, o traidor, estava junto com eles. 6Quando Jesus disse "sou eu", eles recuaram e caíram por terra. 7De novo lhes perguntou: A quem procurais? Eles responderam: A Jesus, o nazareno. 8Jesus respondeu: Já vos disse que sou eu. Se é a mim que procurais, então deixai que estes se retirem. 9Assim se realizava a palavra que Jesus tinha dito: "Não perdi nenhum daqueles que me confiaste". 10Simão Pedro, que trazia uma espada consigo, puxou dela e feriu o servo do sumo sacerdote, cortando-lhe a orelha direita. O nome do servo era Malco. 11Então Jesus disse a Pedro: Guarda a tua espada na bainha. Não vou beber o cálice que o Pai me deu?"

Conduziram Jesus Primeiro a Anás

12Então, os soldados, o comandante e os guardas dos judeus prenderam Jesus e o amarraram. 13Conduziram-no primeiro a Anás, que era o sogro de Caifás, o sumo sacerdote naquele ano. 14Foi Caifás que deu aos judeus o conselho: "É preferível que um só morra pelo povo". 15Simão Pedro e um outro discípulo seguiam Jesus. Esse discípulo era conhecido do sumo sacerdote e entrou com Jesus no pátio do sumo sacerdote.

16Pedro ficou fora, perto da porta. Então o outro discípulo, que era conhecido do sumo sacerdote, saiu, conversou com a encarregada da porta e levou Pedro para dentro. 17A criada que guardava a porta disse a Pedro: Não pertences também tu aos discípulos desse homem? Ele respondeu: Não. 18Os empregados e os guardas fizeram uma fogueira e estavam se aquecendo, pois fazia frio. Pedro ficou com eles, aquecendo-se. 19Entretanto, o sumo sacerdote interrogou Jesus a respeito de seus discípulos e de seu ensinamento. 20Jesus lhe respondeu: Eu falei às claras ao mundo. Ensinei sempre na sinagoga e no templo, onde todos os judeus se reúnem. Nada falei às escondidas. 21Por que me interrogas? Pergunta aos que ouviram o que falei; eles sabem o que eu disse. 22Quando Jesus falou isso, um dos guardas que ali estava deu-lhe uma bofetada, dizendo: É assim que respondes ao sumo sacerdote? 23Respondeu-lhe Jesus: Se respondi mal, mostra em quê; mas, se falei bem, por que me bates? 24Então, Anás enviou Jesus amarrado para Caifás, o sumo sacerdote.

Não és tu também um dos discípulos dele? Pedro negou: "Não!"
25Simão Pedro continuava lá, em pé, aquecendo-se. Disseram-lhe: Não és tu, também, um dos discípulos dele? Pedro negou: Não! 26Então um dos empregados do sumo sacerdote, parente daquele a quem Pedro tinha cortado a orelha, disse: Será que não te vi no jardim com ele? 27Novamente Pedro negou. E na mesma hora, o galo cantou.

O meu reino não é deste mundo
28De Caifás, levaram Jesus ao palácio do governador. Era de manhã cedo. Eles mesmos não entraram no palácio, para não ficarem impuros e poderem comer a páscoa. 29Então Pilatos saiu ao encontro deles e disse: Que acusação apresentais contra este homem? 30Eles responderam: Se não fosse malfeitor, não o teríamos entregue a ti! 31Pilatos disse: Tomai-o vós mesmos e julgai-o de acordo com a vossa lei. Os judeus lhe responderam: Nós não podemos condenar ninguém à morte. 32Assim se realizava o que Jesus tinha dito, significando de que morte havia de morrer. 33Então Pilatos entrou de novo no palácio, chamou Jesus e perguntou-lhe: Tu és o rei dos judeus?

34Jesus respondeu: Estás dizendo isto por ti mesmo, ou outros te disseram isto de mim? 35Pilatos falou: Por acaso, sou judeu? O teu povo e os sumos sacerdotes te entregaram a mim. Que fizeste? 36Jesus respondeu: O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus guardas teriam lutado para que eu não fosse entregue aos judeus. Mas o meu reino não é daqui. 37Pilatos disse a Jesus: Então tu és rei? Jesus respondeu: Tu o dizes: eu sou rei. Eu nasci e vim ao mundo para isto: para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz. 38Pilatos disse a Jesus: O que é a verdade? Ao dizer isso, Pilatos saiu ao encontro dos judeus e disse-lhes: Eu não encontro nenhuma culpa nele. 39Mas existe entre vós um costume, que pela páscoa eu vos solte um preso. Quereis que vos solte o rei dos judeus? 40Então, começaram a gritar de novo: Este não, mas Barrabás! Barrabás era um bandido.

Viva o rei dos judeus!


19,1Então Pilatos mandou flagelar Jesus. 2Os soldados teceram uma
 coroa de espinhos e colocaram-na na cabeça de Jesus. Vestiram-no com um manto vermelho, 3aproximavam-se dele e diziam: Viva o rei dos judeus! E davam-lhe bofetadas. 4Pilatos saiu de novo e disse aos judeus: Olhai, eu o trago aqui fora, diante de vós, para que saibais que não encontro nele crime algum. 5Então Jesus veio para fora, trazendo a coroa de espinhos e o manto vermelho. Pilatos disse-lhes: Eis o homem! 6Quando viram Jesus, os sumos sacerdotes e os guardas começaram a gritar: Crucifica-o! Crucifica-o! Pilatos respondeu: Levai-o vós mesmos para o crucificar, pois eu não encontro nele crime algum. 7Os judeus responderam: Nós temos uma lei, e, segundo esta lei, ele deve morrer, porque se fez Filho de Deus. 8Ao ouvir estas palavras, Pilatos ficou com mais medo ainda. 9Entrou outra vez no palácio e perguntou a Jesus: De onde és tu? Jesus ficou calado. 10Então Pilatos disse: Não me respondes? Não sabes que tenho autoridade para te soltar e autoridade para te crucificar? 11Jesus respondeu: Tu não terias autoridade alguma sobre mim, se ela não te fosse dada do alto. Quem me entregou a ti, portanto, tem culpa maior.

Fora! Fora! Crucifica-o!

12Por causa disso, Pilatos procurava soltar Jesus. Mas os judeus gritavam: Se soltas este homem, não és amigo de César. Todo aquele que se faz rei, declara-se contra César. 13Ouvindo estas palavras, Pilatos levou Jesus para fora e sentou-se no tribunal, no lugar chamado "Pavimento", em hebraico "Gábata". 14Era o dia da preparação da páscoa, por volta do meio-dia. Pilatos disse aos judeus: Eis o vosso rei! 15Eles, porém, gritavam: Fora! Fora! Crucifica-o! Pilatos disse: Hei de crucificar o vosso rei? Os sumos sacerdotes responderam: Não temos outro rei senão César. 16Então Pilatos entregou Jesus para ser crucificado, e eles o levaram.


Ali o crucificaram , com outros dois

17Jesus tomou a cruz sobre si e saiu para o lugar chamado "Calvário", em hebraico "Gólgota". 18Ali o crucificaram, com outros dois: um de cada lado, e Jesus no meio. 19Pilatos mandou ainda escrever um letreiro e colocá-lo na cruz; nele estava escrito: "Jesus, o nazareno, o rei dos judeus". 20Muitos judeus puderam ver o letreiro, porque o lugar em que Jesus foi crucificado ficava perto da cidade. O letreiro estava escrito em hebraico, latim e grego. 21Então os sumos sacerdotes dos judeus disseram a Pilatos: Não escrevas "o rei dos judeus", mas sim o que ele disse: "Eu sou o rei dos judeus". 22Pilatos respondeu: O que escrevi, está escrito.



Repartiram entre si as minhas vestes

23Depois que crucificaram Jesus, os soldados repartiram a sua roupa em quatro partes, uma parte para cada soldado. Quanto à túnica, esta era tecida sem costura, em peça única de alto a baixo. 24Disseram então entre si: Não vamos dividir a túnica. Tiremos a sorte para ver de quem será. Assim se cumpria a escritura que diz: "Repartiram entre si as minhas vestes e lançaram sorte sobre a minha túnica". Assim procederam os soldados.

Este é o teu filho. Esta é a tua mãe
25Perto da cruz de Jesus, estavam de pé a sua mãe, a irmã da sua mãe, Maria de Cléofas, e Maria Madalena. 26Jesus, ao ver sua mãe e, ao lado dela, o discípulo que ele amava, disse à mãe: Mulher, este é o teu filho. 27Depois disse ao discípulo: Esta é a tua mãe. Dessa hora em diante, o discípulo a acolheu consigo.


Tudo está consumado
28Depois disso, Jesus, sabendo que tudo estava consumado, e para que a escritura se cumprisse até o fim, disse: Tenho sede. 29Havia ali uma jarra cheia de vinagre. Amarraram numa vara uma esponja embebida de vinagre e levaram-na à boca de Jesus. 30Ele tomou o vinagre e disse: Tudo está consumado. E, inclinando a cabeça, entregou o espírito. (Na celebração todos se ajoelham um por um instante)
E logo saiu sangue e água

31Era o dia da preparação para a páscoa. Os judeus queriam evitar que os corpos ficassem na cruz durante o sábado, porque aquele sábado era dia de festa solene. Então pediram a Pilatos que mandasse quebrar as pernas aos crucificados e os tirasse da cruz. 32Os soldados foram e quebraram as pernas de um e depois do outro que foram crucificados com Jesus. 33Ao se aproximarem de Jesus, e vendo que já estava morto, não lhe quebraram as pernas; 34mas um soldado abriu-lhe o lado com uma lança, e logo saiu sangue e água. 35Aquele que viu, dá testemunho e seu testemunho é verdadeiro; e ele sabe que fala a verdade, para que vós também acrediteis. 36Isso aconteceu para que se cumprisse a escritura, que diz: "Não quebrarão nenhum dos seus ossos". 37E outra escritura ainda diz: "Olharão para aquele que transpassaram".


Envolveram o corpo de Jesus com aromas, em faixas de linho

38Depois disso, José de Arimatéia, que era discípulo de Jesus - mas às escondidas, por medo dos judeus - pediu a Pilatos para tirar o corpo de Jesus. Pilatos consentiu. Então José veio tirar o corpo de Jesus. 39Chegou também Nicodemos, o mesmo que antes tinha ido de noite encontrar-se com Jesus. Levou uns trinta quilos de perfume feito de mirra e aloés. 40Então tomaram o corpo de Jesus e envolveram-no, com os aromas, em faixas de linho, como os judeus costumam sepultar. 41No lugar onde Jesus, foi crucificado, havia um jardim e, no jardim, um túmulo novo, onde ainda ninguém tinha sido sepultado. 42Por causa da preparação da páscoa, e como o túmulo estava perto, foi ali que colocaram Jesus. Palavra da Salvação!



Comentário do Evangelho


A paixão e a morte de Jesus

Após a oração sacerdotal de Jesus (Jo 17), o Evangelho de João faz a narrativa da sua paixão e morte. A oração consiste num insistente pedido ao Pai para que os discípulos sejam guardados de todo mal e o amor de Deus permaneça com eles. Jesus tem consciência de sua partida. A morte é consequência de sua fidelidade ao projeto de amor do Pai. Por essa fidelidade, Jesus entrega sua vida de forma consciente: “Ninguém tira a minha vida. Eu a dou livremente” (10,18).

Em um jardim se desencadeia o processo da paixão de Jesus. Também num jardim ele será crucificado e sepultado. O jardim é lugar simbólico. Lembra o paraíso terrestre. Lugar de beleza e fecundidade. O jardim do Gênesis foi profanado pelo orgulho humano: tornou-se espaço de divisão e morte. O jardim da morte de Jesus, porém, é o espaço do resgate definitivo da vida.

Jesus costumava reunir-se com seus discípulos no jardim, fora do lugar social das instituições de poder, com as quais, gradativamente, ele vai rompendo. Os discípulos demonstram dificuldade em entender a postura de Jesus. Judas, por exemplo, não consegue desvencilhar-se da ideologia dominante. Faz um acordo com os líderes religiosos de Jerusalém e entrega Jesus. Um batalhão de guardas armados é mobilizado para prendê-lo, sinal de que era realmente considerado um indivíduo perigoso para o sistema oficial de poder.

Procuram Jesus à noite. As trevas, no Evangelho de João, têm um significado especial: em oposição à luz, simbolizam o mal. A ação que está sendo executada é sinal da maldade do “mundo” (instituições que excluem e matam). Jesus, “consciente de tudo o que lhe acontecia”, apresenta-se com o título divino “Eu sou”, identificando-se com o Deus do Êxodo (Ex 3,14). Esse título, paradoxalmente, está ligado com a origem humilde de Jesus: Nazaré da Galileia. O nazareno é Deus. Não é por nada que os guardas caem por terra.

Também Pedro revela muita dificuldade em entender a proposta de Jesus. Sua mentalidade ainda se baseia na ideologia triunfalista. Jesus, porém, vai por outro caminho: a vitória da vida não se dá pelo confronto e pela violência, mas pela obediência ao amor a Deus e ao próximo, também aos inimigos. Foi realmente difícil para Pedro. Decepciona-se com Jesus e vai negá-lo. Mas não deixará de reconhecer profundamente sua falta e tornar-se um discípulo exemplar.

Tanto a instância religiosa, representada por Anás e Caifás, como a instância política do império romano, representada por Pilatos, não encontram motivos para a condenação de Jesus. Esta será efetivada por interesse e conveniência dos chefes. Não foi Deus que quis a morte de seu Filho. Ela foi consequência da opção de Jesus pela verdade e pela justiça, conforme se constata no seu testemunho diante de Pilatos.

O caminho da “via sacra” até a morte de cruz é a síntese de todo o sofrimento humano assumido por Jesus como gesto de extrema solidariedade. Ele se fez maldito (quem morre suspenso no madeiro é maldito de Deus: Dt 21,23) e foi crucificado entre dois malditos. Todos os crucificados e malditos deste mundo estão contemplados na morte de Jesus. Todos são redimidos no seu amor.

A cruz, para os cristãos, torna-se o caminho de seguimento de Jesus. Significa empenhar-se por um mundo de paz e justiça; renunciar ao poder em todas as suas dimensões; denunciar situações que geram exclusão e morte; assumir a causa dos pequeninos; doar-se cotidianamente pela causa da vida em plenitude, sem exclusão. [Celso Lorashi, Mestre em Teologia Dogmática, Vida Pastoral, n.277, Paulus]

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Cristo institui o sacramento do amor


A instituição da eucaristia como rito memorial da nova aliança é certamente o aspecto mais evidente da celebração atual, que, aliás, justifica a sua solenidade como uma evocação "histórica" e figurativa do acontecimento realizado na última ceia. Mas é o próprio missal romano que convida a meditar sobre outros dois aspectos do mistério deste dia: a instituição do sacerdócio ministerial e o serviço fraterno da caridade. De fato, sacerdócio e caridade estão estreitamente ligados com o sacramento da eucaristia, compreendido em sua globalidade e de modo mais preciso.


Jesus lava os pés dos seus: é um gesto de amor


É significativo o fato de João não referir os gestos rituais sobre o pão e o vinho, como os outros evangelistas, ao referir as últimas horas de Jesus com seus discípulos e ao reunir nos "discursos da última ceia" os temas fundamentais do seu evangelho; no entanto, era esse um dado fixo e antiquíssimo da tradição na comunidade, que vemos relatado em forma bem definida no primeiro documento que dele fala, a carta de Paulo aos coríntios (1ª leitura).

João salienta o gesto de Jesus lavando os pés dos seus e deixando, como seu testamento em palavra e exemplo, fazer-se o mesmo entre os irmãos. Não ordena repetir um rito, mas fazer como ele, isto é, refazer em todo tempo e em toda comunidade, gestos de serviço mutuo - não padronizados, mas nascidos da criatividade daquele que ama -' através dos quais torne-se presente o amor supremo do Cristo pelos seus ("amou-os até o fim"). Todo gesto de amor se torna, portanto, "sacramento", isto é, visibilização, encarnação, linguagem simbólica, da única realidade: o amor do Pai em Cristo, o amor, em Cristo, de todos os que creem.



Jesus se dá em alimento; é o sacramento do amor


É a mesma realidade que o rito da ceia, em sua repetição até o fim dos tempos e em sua necessária simplicidade de forma (estilizada) exprime com outra linguagem; mas só quem é "iniciado" pode compreendê-la, e quem vive ou se esforça por viver todos os dias aquilo que exprime no momento da assembleia. Só participamos autenticamente da eucaristia, memorial do sacrifício de Jesus, quando ela é também memorial do nosso sacrifício.

Em outras palavras, trata-se de ter para com o corpo eclesial do Cristo aquele respeito que se tem por seu corpo eucarístico. A presença real do Senhor morto e ressuscitado no pão e no vinho, sobre os quais se diz a ação de graças (cf 2ª leitura), se estende, embora de outro modo, à pessoa dos irmãos, especialmente dos mais pobres (cf todo o contexto de 1 Cor cap. 11); quem faz discriminação, quem despreza os outros, quem mantém divisões na comunidade "não reconhece o corpo do Senhor". Sua ceia não é mais a Ceia do Senhor, mas um rito vazio que expressa sua condenação.


O sacerdócio nasce da eucaristia; é o dom para a unidade


Dentro da comunidade, as relações recíprocas são avaliadas em nível de serviço e não de poder, e encontram sua mais perfeita expressão no momento da ação eucarística. Quem "preside" à comunidade e é por ela responsável, preside também à eucaristia; reúne-a na oração comum, como a une nas diversas atividades da palavra e do auxilio mútuo. Para ser coerentes com seu ministério sacramental, o bispo com os sacerdotes (e os diáconos) são os mais próximos do Cristo servo na consagração total de suas forças e sua vida à atividade eclesial. O Concilio Vaticano II exprime a relação dos vários aspectos do ministério sacerdotal com a celebração da eucaristia: "Os presbíteros... segundo a imagem de Cristo, sumo e eterno Sacerdote, são consagrados para pregar o evangelho, apascentar os fiéis e celebrar o culto divino, de maneira que são verdadeiros sacerdotes do Novo Testamento. Participando, no grau próprio de seu ministério, da função de Cristo Mediador único (cf 1Tm 2,5), a todos anunciam a palavra de Deus. Eles exercem seu sagrado múnus principalmente no culto eucarístico ou sintaxe, na qual, agindo na pessoa de Cristo e proclamando seu mistério, eles unem Os votos dos fiéis ao sacrifício de sua Cabeça e, até a volta do Senhor, apresentam e aplicam no sacrifício da missa o único sacrifício do Novo Testamento, isto é, o sacrifício de Cristo que, como hóstia imaculada, uma vez por todas se ofereceu ao Pai... Exercendo, dentro do âmbito que lhes compete, o múnus de Cristo Pastor e Cabeça, eles congregam a família de Deus numa fraternidade a tender para a unidade e a conduzem a Deus Pai, por Cristo, no Espírito Santo... De coração, feitos modelos para o rebanho, presidam e sirvam de tal modo sua comunidade local, que esta dignamente possa ser chamada com aquele nome pelo qual só e todo o Povo de Deus é distinguido, a saber: Igreja de Deus". [Missal Dominical, ©Paulus, 1995]

Evangelho: João (Jo 13, 1-15


O verdadeiro sentido no serviço aos irmãos

1Era antes da festa da páscoa. Jesus sabia que tinha chegado a sua hora de passar deste mundo para o Pai; tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim.

2Estavam tomando a ceia. O diabo já tinha posto no coração de Judas, filho de Simão Iscariotes, o propósito de entregar Jesus. 3Jesus, sabendo que o Pai tinha colocado tudo em suas mãos e que de Deus tinha saído e para Deus voltava, 4levantou-se da mesa, tirou o manto, pegou uma toalha e amarrou-a na cintura. 5Derramou água numa bacia e começou a lavar os pés dos discípulos, enxugando-os com a toalha com que estava cingido. 6chegou a vez de Simão Pedro. Pedro disse: "Senhor, tu me lavas os pés?" 7Respondeu Jesus: "Agora, não entendes o que estou fazendo; mais tarde compreenderás". 8Disse-lhe Pedro: "Tu nunca me lavarás os pés!" Mas Jesus respondeu: "Se eu não te lavar, não terás parte comigo". 9Simão Pedro disse: "Senhor, então lava não somente os meus pés, mas também as mãos e a cabeça". 10Jesus respondeu: "Quem já se banhou não precisa lavar senão os pés, porque já está todo limpo. Também vós estais limpos, mas não todos". 11Jesus sabia quem o ia entregar; por isso disse: "Nem todos estais limpos".

12Depois de ter lavado os pés dos discípulos, Jesus vestiu o manto e sentou-se de novo. E disse aos discípulos: "Compreendeis o que acabo de fazer? 13Vós me chamais mestre e Senhor, e dizeis bem, pois eu o sou. 14Portanto, se eu, o Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. 15Dei-vos o exemplo, para que façais a mesma coisa que eu fiz". Palavra da Salvação!